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Uma cidade de New Hampshire constrói túneis para proteger salamandras ameaçadas

Keene prepara as primeiras passagens inferiores para anfíbios de New Hampshire, uma infraestrutura ecológica baseada em ciência cidadã para reduzir atropelamentos e manter conectadas as áreas úmidas de reprodução.

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Em Keene, New Hampshire, uma estrada local se transformou no ponto de partida de uma resposta concreta a um problema silencioso de biodiversidade: todos os anos, na primavera, milhares de anfíbios migram para poças temporárias e áreas úmidas para se reproduzir, mas muitos morrem ao atravessar vias com tráfego, luzes e pavimento seco. A cidade, junto com organizações ambientais e órgãos públicos, prepara as primeiras passagens inferiores para anfíbios do estado.

O projeto fica no cruzamento de Jordan Road, um local identificado por anos de observação comunitária. Salamandras-pintadas, rãs-da-madeira, pequenos anfíbios de primavera e salamandras do complexo Jefferson passam pela área, sendo estas últimas reconhecidas como espécie de maior necessidade de conservação em New Hampshire. A obra combinará túneis sob a via com muros ou cercas-guia que direcionem os animais às entradas, elemento decisivo para o funcionamento da passagem.

A iniciativa não nasceu de uma decisão isolada. Desde 2007, o Harris Center for Conservation Education coordena brigadas de travessia de salamandras no sudoeste de New Hampshire. Mais de 2.500 voluntários foram treinados e, juntos, ajudaram a retirar mais de 100.000 anfíbios do caminho dos veículos. Esses dados de ciência cidadã permitiram localizar pontos críticos, sustentar soluções permanentes e construir uma parceria com a Cidade de Keene, NH Fish and Game e apoio da National Fish and Wildlife Foundation.

O caso traz uma lição importante para a conservação: as estradas não fragmentam apenas grandes paisagens; elas também podem interromper migrações curtas, mas essenciais, de espécies pequenas. Em noites amenas e chuvosas, os anfíbios saem de seus refúgios terrestres e buscam corpos d'água onde depositar ovos. Se uma estrada separa a floresta da área úmida de reprodução, a sobrevivência de uma população local pode depender de poucos metros de infraestrutura bem desenhada e bem mantida.

Passagens para anfíbios não são soluções automáticas. Estudos e experiências anteriores indicam que sua eficácia depende do desenho, da umidade, da manutenção, da localização exata e das barreiras capazes de guiar os animais até o túnel. Por isso, Keene representa mais do que uma obra local: é um modelo de infraestrutura ecológica em escala comunitária, no qual monitoramento, voluntariado e planejamento urbano trabalham juntos para restaurar conectividade.

Em um contexto de perda acelerada de biodiversidade, esse tipo de intervenção aponta uma agenda prática para cidades e vilas: reconhecer corredores biológicos, reduzir mortalidade evitável e adaptar a infraestrutura humana aos ciclos de vida de outras espécies. Proteger uma salamandra não é um gesto menor; é cuidar da rede de áreas úmidas, florestas e serviços ecossistêmicos que sustentam a vida local.