A entrega voluntária é a principal porta de entrada de pequenos felinos silvestres no sistema das autoridades ambientais colombianas, mas deixa sem resposta como chegaram às mãos humanas. Estudo na Biological Conservation analisou mais de 600 registros oficiais e encontrou mais de 60% nessa categoria, acima de apreensões e confiscos.
De 2015 a novembro de 2021, foram documentadas 643 entregas envolvendo 708 animais de 11 espécies. A jaguatirica, Leopardus pardalis, representou 56,7%, quase cinco vezes a oncilla, segunda espécie. Os números descrevem ingressos registrados, não a população silvestre ou toda a dimensão do tráfico clandestino.
A figura permite que alguém entregue um animal para cuidado, reabilitação e, quando viável, soltura. Essa saída pode salvar fauna mantida em condições ruins. Mas uma entrega não revela sozinha se houve resgate de boa-fé, posse ilegal isolada ou compra ligada a uma cadeia comercial.
O problema jurídico começa numa definição em anexo da Resolução 2064, que inclui arrependimento, doença, agressividade ou encontro do animal, enquanto a legislação proíbe posse de fauna sem autorização. O Ministério do Meio Ambiente diz que entrega não pode ser equiparada automaticamente a tráfico; cada caso exige avaliação.
A rastreabilidade é insuficiente. Não funciona sistema nacional consolidado, e corporações regionais usam planilhas próprias com campos vazios, formatos distintos e identificação incompleta. Jaguatirica, margay e oncilla podem ser confundidos sem treinamento. O portal nacional previsto desde 2009 está em revisão e não tem data pública de retorno.
A Promotoria não sabe quantas investigações nasceram de entregas porque seus sistemas não registram essa variável. Receber o animal não abre automaticamente caso criminal e reincidências não podem ser rastreadas. Autoridades regionais divergem: algumas priorizam educação e outras avaliam sanções caso a caso.
O estudo não conclui que toda entrega esconda tráfico nem acusa os responsáveis de integrar redes criminosas. O achado é institucional: faltam dados homogêneos para separar resgate, posse e comércio. Melhores formulários, identificação, interoperabilidade e acompanhamento judicial podem revelar padrões sem desestimular a entrega urgente. A prioridade é manter essa saída segura e recuperar a história de cada animal.