Os incêndios florestais que afetam o departamento boliviano de Tarija, no sul do país, continuam a se espalhar pelo quinto dia consecutivo e atingiram comunidades próximas à capital, enquanto os fortes ventos dificultam os esforços de combate e testam a capacidade de resposta do Estado[reference:75].
Uma das frentes mais críticas encontra-se na comunidade de Rincón de la Victoria, a cerca de 12 quilómetros da cidade, onde as chamas desceram em direção a áreas povoadas, enquanto outros focos permanecem ativos em comunidades como Quirusillas, Erquiz Ceibal, Obrajes, Cadillar e La Victoria[reference:76]. O governo mobilizou dois helicópteros da Força Aérea Boliviana para realizar lançamentos de água e reforçou as operações com militares e bombeiros, mas as condições meteorológicas limitaram a eficácia dos trabalhos[reference:77].
Os ventos de até 70 km/h, o terreno montanhoso e a seca alimentaram múltiplos focos de incêndio e forçaram a distribuição de recursos entre os diferentes pontos[reference:78]. Os incêndios em Tarija fazem parte de uma emergência mais ampla que também afeta os departamentos de Santa Cruz e Cochabamba, onde as altas temperaturas e a baixa humidade favorecem a propagação do fogo[reference:79].
Em Santa Cruz, os dois focos de incêndio estão concentrados perto da fronteira com o Brasil e estima-se que mais de 21 mil hectares foram afetados[reference:80]. Numa reunião do Comité Departamental de Operações de Emergência, o governador Juan Pablo Velasco questionou o esquema de financiamento para as autonomias: "Não podemos proteger mais de 15 milhões de hectares de áreas protegidas com recursos tão limitados"[reference:81]. Explicou que o Governo recebe 0,4% do Orçamento Geral do Estado, o equivalente a 210 milhões de dólares, dos quais pode decidir cerca de 70 milhões[reference:82].
Em Cochabamba, um incêndio reativou-se na comunidade de Liriuni, a 28 quilómetros da cidade, e mais de 100 hectares de vegetação foram consumidos[reference:83]. Nas três regiões, os bombeiros e voluntários enfrentam uma série de dificuldades que expõem a limitada capacidade de resposta do Estado, incluindo falta de equipamento e combustível para transportar as brigadas para as zonas de emergência[reference:84].
Nos últimos dez anos, os incêndios florestais tornaram-se um fenómeno recorrente na Bolívia durante a estação seca, especialmente entre julho e outubro, quando as altas temperaturas, a baixa humidade e os ventos favorecem a rápida propagação do fogo[reference:85]. Vários estudos académicos e de organizações ambientais concordam que a maioria dos focos não tem origem natural, mas sim em atividades humanas[reference:86].
Entre as principais causas identificadas estão a expansão da fronteira agrícola e pecuária, bem como a distribuição de terrenos em zonas florestais que favoreceu interesses setoriais e coincidiu com processos de ocupação irregular de terras[reference:87]. As investigações também indicam que as invasões de terras associadas a economias ilícitas, como o narcotráfico e a mineração ilegal, contribuem para o desmatamento e o uso indiscriminado de queimadas para consolidar o controlo territorial[reference:88].
Tudo isto ocorre num quadro regulatório —conhecido localmente como "leis incendiárias"— que facilitou estas práticas através de autorizações para desmatamento e queimadas, enquanto as sanções para incêndios ilegais são leves e a sua aplicação tende a ser deficiente[reference:89]. A crise em Tarija, Santa Cruz e Cochabamba evidencia a necessidade de fortalecer as capacidades institucionais, melhorar os mecanismos de prevenção e rever as políticas que permitiram a expansão descontrolada da fronteira agrícola em áreas de alto valor ecológico.